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ISAAC NEWTON E O CENTRO CULTURAL MARTIM CERERÊ
Escrito por hígor    Ter, 19 de Maio de 2009 11:31    PDF Imprimir E-mail
C.C. Martim Cererê (Pátio)

“Todo corpo tende a conservar seu estado de repouso ou movimento.” Este enunciado, proferido há alguns bons pares de anos pelo gênio inglês Isaac Newton, esclarecia em linhas gerais o princípio físico da inércia. O mais interessante é que tal conceito pode facilmente extrapolar o campo das Ciências Exatas e ser aplicado à realidade da vida. Exemplo: O 1º Fórum Goiano de Cultura foi o importante pontapé inicial rumo à quebra da inércia existente na falta de diálogo entre a AGEPEL (agência responsável pelas políticas culturais do Estado de Goiás) e o segmento cultural goiano. O constrangedor isolamento entre Governo e Sociedade apresentou ali suas primeiras fissuras e, seguindo a lógica newtoniana, a tendência é o fenômeno se aprofundar. Tomara.

 

Fomento; Formação, Interiorização e Produção de Eventos; e Democratização de Espaços foram os três eixos de discussão propostos pelo Fórum. Este último, em particular, trouxe à tona uma questão que toca diretamente o atual momento da produção cultural de nossa região: o patinho feio dos espaços públicos, o apêndice indesejável das políticas culturais de Goiás e ainda assim o mais impactante espaço do fazer cultural da capital – e por tabela, do Estado –, o Centro Cultural Martim Cererê.

 

 
C.C. Martim Cererê
(interior do teatro Pyguá)
 

Desconhecer o papel desempenhado pelo Martim Cererê na cultura e juventude goianas da última década é desconhecer a própria cultura e juventude goianas. Nas polêmicas e ousadas gestões encabeçadas pelo transgressor Carlos Brandão, o Cererê abrigou as mais diversas, inovadoras e representativas manifestações culturais de nossa pitimbada região. Foi ali que os festivais Bananada e Goiânia Noise se solidificaram e colocaram Goiás em posição de liderança no campo da nova música brasileira. Falsa modéstia às favas – afinal de contas sou um dos responsáveis por estes festivais –, o rock (tão goiano e legítimo quanto a Cora Coralina, pode perguntar pro Gramsci) é uma das mais relevantes – senão a mais relevante – produção cultural contemporânea de nossa terra. Só não percebe isso quem está encastelado, longe das ruas e daquilo que acontece espontaneamente nelas, com ou sem grana pública. E que sequer se dá ao trabalho de ler a Folha de São Paulo, Veja, Bravo!, ou qualquer outro veículo tão chique e caro à intelligentsia do pedaço.

Mas para não ficar parecendo que estou advogando em causa própria, busco outros indicadores. Foi ali no Cererê que a música eletrônica ganhou contornos mais democráticos em projetos como o saudoso Eletronicamente, os festivais e grupos de teatro se multiplicaram e a moderna MPB encontrou as artes plásticas e a experimentação em eventos semanais no 5ativa. Foi ali que nasceu o primeiro festival de cinema de Goiás, a saber a hilariante mostra TRASH. É ali que milhares (isso mesmo, milhares!) de adolescentes se reúnem nos eventos de animes, realizados sem um tostão de dinheiro público e completamente ignorados pelos órgãos de imprensa. Quando estava funcionando a pleno vapor (ainda que em condições muito distantes do ideal), o Cererê abrigava cerca de 400 espetáculos por ano. Não precisa ser o Newton pra fazer as contas e imaginar quantas pessoas estavam ali, trabalhando e gerando bens materiais e simbólicos neste negócio que hoje é chamado de Economia da Cultura.

O processo deflagrado pelo 1º Fórum de Cultura (uma iniciativa aparentemente simples e cuja demora em acontecer só pode ser explicada pela inércia administrativa) pode ser um divisor de águas nas políticas culturais do Estado de Goiás. Ouvir as demandas efetivas do segmento (e ignorar os velhos bezerros da cultura, em sua eterna busca por uma suculenta tetinha para mamar) é fazer um golaço. Provavelmente inédito. No meio disso tudo, está o Centro Cultural Martim Cererê, que nem de longe necessita de fórmulas milagrosas ou invencionices variadas para realizar a sua vocação: abrigar a juventude e a cultura realmente capazes de colocar Goiás em diálogo com o Brasil e o mundo. Discutir com quem efetivamente conhece, usa e dá suporte ao espaço é um caminho para o acerto. Isso exige coragem e vontade política. Como diria Isaac Newton, “a inércia tá aí é pra ser quebrada”.

 

Por Márcio Júnior

 
 
 

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Última atualização ( Ter, 19 de Maio de 2009 11:45 )