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Segundo longa-metragem do cearense Karim Aïnouz é uma história de perseverança que expõe a força dos sonhos e os limites da moral TÚLIO MOREIRA ROCHA Especial para o Jornal Opção As imagens caseiras que abrem O céu de Suely (2006), segundo filme do cineasta Karim Aïnouz, são frágeis e desfocadas. Estão embaladas pela voz de Diana na canção “Tudo que eu tenho”, versão brasileira para um hit dos anos 1970 da banda Bread. O início da obra sintetiza os sonhos da personagem principal, Hermila (Hermila Guedes). Os sonhos dela são distorcidos e granulados. A realidade começa em seguida. E está em 35mm. “Aqui começa Iguatu”. A placa anuncia o retorno de Hermila a sua cidade natal, perdida nalgum ponto do interior do Ceará. Voltar para Iguatu significa que São Paulo não aconteceu. O choro do bebê que acompanha Hermila concretiza, aos poucos, essa impressão. A protagonista conta para a família: “Em São Paulo, tudo é caro”. Contudo, retornar para o Ceará não lhe custou pouco — e o filho, Mateuzinho, é uma bagagem que Hermila ainda não sabe precisar o valor. Ela voltou para Iguatu com a promessa de que Mateus, o pai do bebê, chegaria algum tempo depois. Isso não acontece. A situação é esta: um Mateus que nunca chega; outro que nunca para de chorar. A falta de dinheiro e a ausência de perspectivas dimensionam a ambição de Hermila. A personagem não pretende entregar os pontos. Assemelha-se, nesse aspecto, ao personagem principal do longa-metragem de estreia de Aïnouz, Madame Satã (2002). Ambos são inconformados com a marginalidade a que estão condenados, e persistem com seus sonhos, mesmo que a atitude não faça muito sentido para os que estão próximos. Costurada por uma trilha sonora repleta de forrós tecnobregas e versões nacionais para hits estadunidenses, a saga de Hermila surge juntamente com o desejo dela de ir para o lugar mais distante possível de Iguatu — a distância, para ela, representa a única oportunidade de começar de novo. São Paulo não era longe o suficiente. A personagem decide rifar o próprio corpo. “Uma noite no paraíso” é seu slogan publicitário. O paraíso de Suely, codinome criado por ela para vender os bilhetes, é o inferno de Hermila. O deserto cearense povoa as decepções de Hermila, que não está disposta a perder sempre. A atitude extrema demonstra sua gana de sair dali. Ao oferecer os bilhetes da rifa, Hermila parece vender seu sonho mais caro. Tratada por sua comunidade como uma prostituta, Hermila/Suely está tão focada em seu objetivo que nem a rejeição da família mudará seu caminho. Novamente, sua insistência lembra a trajetória de João Francisco dos Santos, o Madame Satã, interpretado por Lázaro Ramos no elogiado début de Karim Aïnouz, um dos nomes mais festejados do novo cinema brasileiro. Aïnouz consegue alargar o sofrimento de Hermila diante do espectador. Em uma cena, o diretor brinca com a impaciência da moça: ela parece fazer sexo, quando está, na verdade, lavando um carro — fazendo um bico. A relação de Hermila com Georgina (Georgina Castro) e João (João Miguel) é uma variante desse desespero. Envolver-se com eles aumenta a vontade de não ser como eles, presos em suas ambições diminutas e sonhos abortados pela sequidão nordestina. A trilha sonora é regional, mas fala do mais universal dos sentimentos/sofrimentos. As canções acompanham o ritmo do coração de Hermila. E é aqui que o diretor consegue outra proeza: transformar O céu de Suely em uma história de desesperança e perseverança simultaneamente muito local e muito geral. Não é um filme limitadamente brasileiro, apesar de enfeitado com brasilidades muito características. Demonstra uma identidade forte com o Brasil, mas também está carregado de sensações e conflitos ecumênicos. O olhar de Aïnouz acompanha lentamente a agonia de sua personagem. O diretor filma o ritual de Hermila para tornar-se Suely e pagar o prêmio ao vencedor da rifa. São imagens que exploram a humilhação e a perda da dignidade. Mas a esperança e os sonhos continuam presentes. A cena icônica do filme é o diálogo travado entre Hermila e a avó. Hermila reluta em pedir desculpas, mas acaba atendendo à solicitação da avó. Na verdade, ela está pedindo perdão a si mesma. E continua acreditando que sua obstinação a levará a algum lugar melhor. A decisão de rifar o corpo desafia a ética de sua família, dos vizinhos, da cidade. Mas, acima de tudo, é uma afronta gigante à própria moral. Pagar o prêmio ao vencedor é último passo para Hermila alcançar seu paraíso. Trata-se de uma tarefa infernal. Suely quer terminar logo. Depois, não olha mais para trás. A placa anuncia: “Aqui começa a saudade de Iguatu”. Para os que permanecem na cidade, aqui começa também a vontade de ir com tu.
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