| 10 Discos Para Entender o Novo Pop Brasileiro - Pt. III | ||||
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![]() Desde que os estilhaços do “BRock” se espatifaram anos noventa adentro (como radiografias opacas e precocemente nostálgicas de tempos idos) que uma nova cara possível e relevante para a música pop nacional começou a ser pensada.
Os Raimundos inauguravam sua onipresença no dial das efe-emes mais ou menos ao mesmo tempo em que alguns festivais (que forjariam as bases do modus-operandi de um futuro cenário independente) surgiam. Em Campinas-SP nascia o Juntatribo, no Rio de Janeiro o Super-Demo, em Goiânia o Goiânia Noise, em Minas Gerais o BHRIF, e em Recife o Abril Pro Rock, mas a articulação de um circuito realmente nacional ainda era embrionária e amadora. Corte seco para dois mil e oito. Toda essa intensa movimentação iniciada há mais de dez anos e integrada, via de regra, pela trindade msn/e-mail/myspace, resultou numa nova aparência, robusta e saudável, para essa rede-do-rock que ainda está em plena fase de crescimento, mas que já aprendeu a se retro-alimentar de seu próprio e crescente sucesso.
O mais importante, porém, é que esse mar de novos artistas e bandas tem sido repetidamente traduzido numa fertilidade discográfica tão talentosa quanto multi-lateral. Se no século XXI os olhares subterrâneos do nosso underground foram desviados para o velho-oeste brasileiro, logo São Paulo e Rio de Janeiro, assoberbadas como é natural que sejam, trataram de também parir suas versões para essa invasão tramada via web. De Sorocaba – interior de São Paulo – para Londres, o Wry deu a luz à sua pequena obra-prima shoegazer Flames In The Head, enquanto os Autoramas se preparavam para deixar o Rio de Janeiro, rumo à sua primeira turnê pelo Japão, e os Forgotten Boys, começando a fazer discos realmente bons, passavam a freqüentar a programação da MTV.
Ao mesmo tempo, subindo um pouco no mapa, o La Pupuña inventava soundscapes numa improvável cópula perfeita entre o surf-rock idílico de Ventures e Dick Dale com a acelerada e suarenta guitarrada paraense, ao passo que, em Alagoas, o Mopho desvelava toda a crueza delicada e psicodélica de Sinne Diabolos Nullus Deus, sucessor de sua elogiada estréia. Na pós-contemporaneidade perniciosa que aplaudiu a pretensão-bossa-nova do Los Hermanos com ares de eureca!, o Valv, em Minas Gerais, nunca soube se preocupar com os discos de João Gilberto e Caetano Veloso, e mesmo mergulhado em anglicismos, sem qualquer traço evidente de brasilidade, The Sense of the Movement é um dos melhores álbuns do música nacional recente. Hellburst, do quarteto goiano MqN, fundou novos modos para velhos “maus-hábitos”, enquanto na Bahia a cantora, produtora e show-woman Nancyta, escoltada pelos Grazzers, cometia um disco tão potente e cheio de frescor criativo quanto poderia ser o filho único de um super-grupo indie em seu melhor momento.
A lista é longa e poderia se espichar por páginas. Mas estes dez discos eleitos, entendidos simultaneamente dentro do contexto do circuito de festivais, mídias independentes (ou não), e público-consumidor, são capazes de esculpir uma silhueta reconhecível desses tempos tão férteis para o novo pop brasileiro.
(Não se trata de um ranking. A ordem da lista é aleatória, não por mérito)
Idem –Móveis Coloniais de Acaju 2006 – Trattore Distribuidora O Móveis Coloniais de Acaju nasceu fugindo dos estereótipos, tanto da agressividade ensaiada do roqueiro clássico, quanto da “nova” indiferença dissimulada dos indies, mas por falta de uma turma própria, acabou conseguindo acesso livre aos dois mundos. O grupo se fez notar primeiro nos festivais do eixo Goiânia-Brasília, no começo do milênio. Quase dez anos depois, já consagrado em palcos de praticamente todo o Brasil, atravessou o Atlântico e fez seus primeiros shows europeus pouco antes de lançar seu segundo disco. Idem, o primeiro álbum, é guiado por um ecletismo festeiro que conecta, numa linguagem absolutamente pop, o ska à música brasileira. Numa profusão alucinada de ótimas referências, metais em brasa, as 12 faixas do álbum ainda sugerem flertes com a música da América Central e leste europeu, além de jazz, funk, bossa-nova e, é claro, do rock, emoldurando letras bem humoradas (e não engraçadinhas), que misturam Gorbachev com Copacabana, e botam Fellini, Buñuel, Pasolini e Fidel numa roda-de-samba cubana. Mas se o disco surpreende pela perícia em combinações aparentemente inusitadas, é no palco que o grupo melhor se traduz, em celebrações apoteóticas que invariavelmente se transformam em baile de carnaval: frenético, suado e sorridente.
Madame Saatan – Madame Saatan 2007 – Cubo Discos/ Fósforo Records Honrando a tradição da música pesada com uma leitura nova de velhos clichês, o primeiro disco da Madame Saatan soa como a implosão programada de um grande edifício: exata e brutal. Nascida em Belém do Pará, a fama adquirida em shows pelo Brasil obrigou o quarteto mudar seu endereço para a capital paulista (segundo eles próprios por uma questão de logística), e a partir de São Paulo ampliou seu raio de ação, conseguindo uma atenção até então inédita para uma banda paraense, num circuito que não é dos mais simpáticos ao heavy metal. A voz poderosa, quase empostada, da vocalista Sammliz empresta uma aura de falsa delicadeza ao amontoado de riffs velozes, que corre em paralelo com uma seção rítmica tão sólida quanto mordaz, processando reminiscências de Pantera, Metallica e Sepultura num discurso sonoro aberto, que permite, em meio à abundância de fúria calculada, até sutis e ligeiras citações regionais de música brasileira. E se as letras tendem ao abstrato quase incompreensível (À noite acordam e são devorados/ Eles os mesmos, as ruas, as horas/ Sentem o que acham que existe/ Por que temem e não descobrem), as guitarras ferozes, a atmosfera de constante tensão e o contraste da (falsa) candura X ferocidade, são suficientes para dar um tom nobre ao disco. 2008 – YB/Quannum Projects Luciano Zakata, o Curumin, é daqueles músicos que tocam música, não instrumentos. Em Japan Pop Show o multi-instrumentista assumiu-se novamente como baterista e, sempre debaixo de signos pop, aprimorou sua receita nobre e apimentada de samba, r&b, funk, dancehall, rock, soul e dub, e ganhou lugar nos principais festivais do País, passando à apreciação também do público brasileiro, já que o músico coleciona admiradores nos EUA e Europa. Num arco criativo que vai de João Donato a Beastie Boys, Japan Pop Show impressiona tanto pelo encaixe suingado dos pancadões “Kyoto” (com participações do duo californiano Blackalicious e do rapper Lateef the Truth Speaker) e “Caixa-Preta” (participações de B-Negão e Lucas Santana), ou pelo instrumental crescente e pesado de “Salto no Vácuo Com Joelhada”, quanto pelas sutilezas psicodélicas de jóias soul como “Dançando no Escuro” (com Marku Ribas nos vocais) ou “Compacto”. “Magrela Fever”, o quase-frevo de guitarras furiosas, flerta com certa “cafonice” assumida e orgulhosa, e “Saída Bangú” foi construída em cima de samplers e colagens de Revendo Amigos, o melhor disco de Jards Macalé. Japan Pop Show é pop brasileiro tipo-exportação, mas passa longe daqueles vazios estilísticos com farda étnica jogados na vala comum da world-music. É electro-samba “de raiz”, direto do baile funk para seu I-pod.
Um Carinho Com Os Dentes - Porcas Borboletas 2006 – Trattore Distribuidora
Não fosse a guitarra, o baixo e a bateria ninguém diria que o Porcas Borboletas é uma banda de rock. Fundado sob conceitos tão teatrais e poéticos quanto musicais, o grupo mineiro faz sentido mesmo é no palco, mas Um Carinho Com Os Dentes (seu primeiro disco) dá contornos musicais à sua literariedade cênica. Reprocessando a estética arrojada da vanguarda paulista de Itamar Assumpção e dos irmãos Barnabé, e fundindo a emepebê marginal com os trejeitos do rock, os vocalistas Enzo Banzo e Danislau Também dão significado a provocações da categoria de “Vernissage” (Vim Atrás do Vin/ Mas Vin/ Que é bom não vi / Quê q cê vei vê?/ Quê q cê vei vê? Vernissage/Vernissage/ Vernissage), “Cerveja” (É melhor dizer/ Amor acabou a cerveja!/ Do que chorar/ Cerveja acabou o amor!) e “Waldisney” (Nosso Waldisney (é Walt Dinsey pai!)), entre tantas outras, que se utilizam principalmente da palavra como mote musical, deixando ao instrumental recortado a função de moldura caótica para pirações literárias.
Artista Igual Pedreiro - Macaco Bong 2008 – Monstro Discos
O Macaco Bong é o trio cuiabano que se guia pela guitarra sinuosa e lubrificada de Bruno Kayapy, garoto que mal havia completado vinte e um anos de idade quando Artista Igual Pedreiro foi gravado, em novembro de 2007. Legítimos representantes do movimento que elevou Cuiabá à categoria de símbolo de um modelo para o indie nacional, os três músicos – além de Kayapy, Ney Hugo no Baixo e Ynaiã Bentrholdo na bateria – desdenham dos lugares-comuns do rock, e gostam de dizer que o que fazem é trilha-sonora para o sexo. O instrumental poderoso e envolvente não nega o rótulo pronto, mas se expande ainda por explosões de virilidade hardcore e tremulinas jazzísticas tão sutis quanto arrepiantes. Com títulos tão sugestivos como "Blacks Fuck", "Vamosdahmaisuma", e "Fuck You Lady", as dez canções do disco – cada uma com mais de seis minutos de duração, são investidas de uma vitalidade melódica tão genuína que passa longe do cabecismo hermético a que se relega boa parte do jazz-fusion. A crítica não tardou em reconhecer a genialidade que ungia o disco e, em 2008, Artista Igual Pedreiro foi eleito pela edição nacional da revista Rolling Stone como melhor álbum pop do ano. Anotherspot – Pelvs 2006 – Midsummer Madness
Filha bastarda dos anos noventa, a Pelvs é uma das bandas mais longevas e regulares do independente nacional, e em 2006 lançou o quarto disco de uma carreira de mais de quinze anos. Anotherspot voltou a parabólica do grupo para a pós-modernidade contemplativa do post-rock europeu – com faixas imensas e de uma exuberância climática poderosa, deixando as reminiscências goth-pop anos 80 como paisagem ocasional para curtos intervalos na fantasia onírica. Mas, em delicados tratados psicodélicos matinais de quase onze minutos de duração (“Baby of Macon”) ou em pop-songs noturnas (“Indian Maracas”), a Pelvs continuou deslizando melodias num aparente descompromisso lo-fi tão puro quanto espontâneo. Em "Tupiguarani" – a melhor canção do disco, o grupo misturou seu próprio passado às texturas plácidas do novo milênio, num quase-épico solene que evoca, mais uma vez, a contemplação. Mais atmosferas e sensações, “menos” música. Foi a partir de Anotherspot que a Pelvs se distanciou de vez da eterna associação com nomes “luminares” do rock alternativo da década de 80, expandiu horizontes, experimentou e, finalmente, descobriu sua assinatura própria. Hoje é uma das melhores velhas bandas desse novo rock.
Continua...
Hígor Coutinho é editor do blog
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| Última atualização ( Ter, 19 de Maio de 2009 12:07 ) |








